São Paulo
28°C
Rio de Janeiro
27°C
Brasília
26°C
Salvador
29°C
Belo Horizonte
25°C
Fortaleza
27°C
Recife
27°C
Manaus
27°C
Curitiba
22°C
Porto Alegre
26°C
Home >> Último Segundo >> Sintonia do futuro: o impacto da mudança das rádios para FM estendido

Sintonia do futuro: o impacto da mudança das rádios para FM estendido

Migração das faixas AMs tem aspectos ambientais e sociais

por

Luiz André Ferreira

28 de dezembro de 2023

IG

As rádios FM demandam equipamentos menoresfanjianhua/Freepik

Se ambientalmente é positiva a migração das emissoras de rádio da faixa AM para a FM, em termos sociais é um desastre. O transmissor utilizado no segmento Amplitude Modulation não possui eficiência energética. Ele necessita de uma quantidade disposição elétrica muito maior, consumo que vai crescendo conforme a potência da empresa. Além disso, apresenta um significativo desperdício de sinal gerado em sua transmissão. A conta mensal de uma estação de médio a grande porte oscila entre 70 a 80 mil reais. 

Além dos custos, esse impacto ambiental é agravado ao considerarmos que em locais isolados, operam totalmente ou parcialmente por geradores a óleo. Isso sem contar que, apesar do Brasil contar com uma matriz energética predominantemente limpa, derivada de hidrelétricas, ainda faz uso, em alguns pontos e ocasiões, das poluentes termoelétricas. 

No entanto, o gradual fim da faixa mais ampla, a AM, resultará em um verdadeiro apagão, deixando várias regiões do país, especialmente o Norte, em uma vasta sombra comunicacional. Isso ocorre porque as rádios que operam no FM têm um alcance consideravelmente menor, limitando-se, na melhor das hipóteses, aos municípios vizinhos de sua emissão. Contraditoriamente, a faixa que está sendo extinta praticamente não possui barreiras, podendo alcançar até mesmo outros países, especialmente à noite, quando as condições atmosféricas facilitam. 

Apagão comunicacional

Além do Brasil ser uma nação continental, é caracterizada por desigualdades econômicas, geográficas e extensões territoriais estaduais e municipais de tamanhos distintos. O município paraense de Altamira, com 161.445,9 quilômetros quadrados, acaba de entrar para o livro dos recordes mundiais. Ou seja, o pouco alcance das emissoras de FM mal conseguiria abranger parte do território dessa imensa cidade.

Isso sem mencionar os vastos biomas praticamente intransponíveis tanto de logística como de retransmissão de sinal, como a Floresta Amazônica e o Pantanal.  A situação se agrava ainda mais ao considerarmos que existem locais onde a luz, o telefone, a internet, a  televisão e as estradas ainda não chegaram.  A comunicação radiofônica é a única existente efetiva nesses pontos cegos.

Esse quadro é bastante significativo nas comunidades de matas e em áreas rurais remotas. A interação e a informação só existem graças à penetração nessas regiões das rádios públicas que operam com dial AM, como a Nacional da Amazônia e a do Alto Solimões, incorporadas na última década ao conglomerado de mídia estatal da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Estima-se que essas estações públicas atendam a pelo menos 60 milhões de pessoas, servindo até mesmo populações de outros países da Amazônia Legal. 

 A atual administração da EBC assegura que não extinguirá as grades das redes de AM nos pontos mais remotos para não gerar um apagão de comunicação. Contudo, por ser uma empresa pública, sua continuidade não é garantida. Vale lembrar que na gestão Bolsonaro chegou a ser anunciada a extinção de emissoras de rádio e a privatização da TV Brasil, o que só não foi efetivado devido à mobilização popular e ações na justiça. 

Deserto de Notícias

Além dessa questão do isolamento geográfico, mesmo em locais mais urbanizados, o Brasil enfrenta um grave problema denominado “deserto de notícias”. Surpreendentemente, um estudo do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo revelou que mais de 30 milhões de brasileiros vivem em locais onde a comunicação de massa não chega. Com base no levantamento dos 5.570 municípios do país, 2.860 não possuem veículos de comunicação, ou seja, 51% das cidades. Isso resulta em um em cada cinco cidadãos estão sem acesso a notícias locais. 

Como essa pesquisa foi realizada em 2018, estima-se que o quadro pode ter se agravado devido ao progressivo fechamento dos jornais impressos. A televisão, por sua vez, apresenta quase que totalidade de sua grade de atrações imposta em rede nacional, com pequenas inserções para os informativos regionais. Muitas localidades sequer possuem afiliadas, restringindo-se a meras repetidoras das programações das sedes, no Rio de Janeiro e em São Paulo. sedes. Isso sem contar que nos pontos mais distantes, o sinal só chega via satélite através de parabólicas onde tecnicamente não há como abrir espaço para questões comunitárias. 

O processo migratório das potentes estações AM para as restritas FM tende a agravar ainda mais esse extenso deserto comunicacional brasileiro deixando muitas localidades sem receber os sinais. Fora que culturalmente uma das características da programação radiofônica é justamente a proximidade com o cotidiano do ouvinte.

Migração antecipada 

Não há dúvida de que a recepção das tradicionais emissoras da Faixa AM em áreas urbanas está se tornando cada vez mais difícil, sendo praticamente impossível nos grandes centros. Fatores do desenvolvimento humano desempenharam um papel crucial nesse agravamento, como: o aumento dos andares dos edifícios, a proliferação de micro-ondas domésticos, o uso generalizado de celulares, o Wi Fi e o intenso tráfego terrestre e aéreo. 

Os chiados e os estalos estáticos meteorológicos e humanos tornam parte dos conteúdos inaudíveis. Isso sem contar que com o processo de digitalização e melhoria da qualidade do áudio pelos demais meios de comunicação, tornou os nossos ouvidos mais exigentes. 

O Processo de Troca

A mudança de faixa já estava ocorrendo antes de o Ministério das Comunicações intervir. As empresas mais ricas, detentoras de concessões em ambos os canais, anteciparam-se e já estavam em processo de descontinuação das suas estações musicais de FM para transferir suas tradicionais programações do AM para o espectro de qualidade sonora mais apurada. Essas estações antes de migrarem já davam claros sinais de decadência com quedas vertiginosas da audiência e dos anunciantes, principalmente nas capitais. 

No mercado do Rio de Janeiro, a Rádio Tupi encerrou sua programação do braço musical intitulado “Nativa”. A Globo retirou do ar a dançante 98FM. A CBN, do mesmo grupo, sacrificou a clássica Globo FM. Em São Paulo, a filial da CBN ocupou o espaço da Rádio X. A Globo migrou para 94,1FM, mas essa mudança antecipada não impediu que, mesmo assim,  suas atividades fossem descontinuadas.

A evidência do abandono veio com a criação da mais recente rede de rádio de notícias, a Bandnews. Ela já surgiu totalmente na Frequência Modulada, obrigando a família Saad a adquirir e arrendar emissoras locais, mesmo em praças onde já possuíam estações AM ociosas, como é o caso do Rio de Janeiro. 

Oficialização da migração

 O que já estava sendo ditado pelo mercado, foi oficializado em sete de novembro de 2013, com o decreto regimentando a troca.  Isso só foi possível tecnicamente após o encerramento do processo de digitalização da TV brasileira, que liberou os canais iniciais da faixa FM, compartilhada pelos dois meios de comunicação. Contudo, o Governo teve que travar uma queda de braço com o poderoso segmento da telefonia, que almejava que todo o espaço desocupado pela televisão fosse destinado para transmissão celular. 

Antes do decreto, já vinha ocorrendo a otimização no dial , tornando os espaços entre as estações mais curtos e, ao mesmo tempo, mais suscetíveis a interferências. No Rio de Janeiro, as Rádios Mec e Jornal do Brasil precisaram se movimentar com pequenas alterações nos números de seus canais para que o espectro pudesse abrigar as emissoras públicas, como a da Assembleia Legislativa, a do Senado Federal e da Marinha – esta na região dos Lagos fluminense.

Já a faixa estendia propriamente dita iniciou sua arrumação logo depois. A estrada radiofônica que ia de 87,7 MHz a 107,9 MHz (megahertz) foi aumentada, iniciando as irradiações em 76,1 MHz. Essa medida está possibilitando abrigar as várias emissoras migrantes. Esse acréscimo passou a ser chamado tecnicamente de “FM Estendido” ou “E-FM”. Cerca de 1.300 estações já percorreram esse caminho. Em São Paulo, o experimento foi realizado com uma nova estação do grupo Jovem Pan. As líderes de audiência no AM também abandonaram o antigo barco, como a Capital e a Super. No Rio de Janeiro, após a privatização do canal de MPB federal pelo Governo Fernando Henrique Cardoso, a icônica Nacional, emissora mais importante da história da comunicação brasileira, voltou a transmitir na Frequência Modulada em sete de maio de 2021 e ainda estreou seu sinal nos mercados de São Paulo, Belo Horizonte e Recife. 

Outra emblemática estação do governo no Rio, a Rádio Mec, que já possui um canal dedicado à música erudita, não teve a mesma sorte e ainda não conseguiu espaço para transferir sua pulsante programação cultural do AM. As primeiras privadas no calendário de migração foram: a Bandeirantes, ex-Guanabara, que nunca recebeu investimentos no Rio e sobrevive de venda de horários. A outra é a Manchete, um dos poucos bens remanescentes da falência do Grupo Bloch. 

Investimento só para quem pode 

Além da melhoria significativa na qualidade do som, as empresas migrantes também passam por impactos econômicos. Nem todas, especialmente as de cidades menores e mais distantes, terão recursos para a troca dos equipamentos e para a pagar a nova outorga, que pode variar de R$ 100 mil a R$ 4 milhões, dependendo da localização e da potência. A linha de crédito do BNDES não foi efetivada conforme prometida. 

No entanto, além da sobrevivência comercial, aquelas que conseguirem investir na migração reduzirão consideravelmente os custos fazendo jus aos gastos com o processo migratório.  Além da já mencionada economia de energia elétrica, a legislação permite que as FMs sejam operadas pelos próprios locutores, desonerando o quadro de funcionários, o que não é permitido com as  tradicionais do AM. 

As antenas também são muito menores e podem ser instaladas no topo de estruturas já existentes, eliminando a necessidade de um amplo parque de transmissão. Em São Paulo, muitas estão no topo dos edifícios da Avenida Paulista. No Rio de Janeiro, por imposição do regime militar, quase todas receberam autorização para irradiarem do Morro do Sumaré, algo impensável hoje, devido aos impactos ambientais e de logística em plena área de proteção do Parque Nacional da Tijuca. 

As estações na faixa AM, tecnicamente, precisam de terrenos planos, preferencialmente próximos a áreas alagadas, cada vez mais escassos e caros nos grandes centros. Dependendo da potência, esses espaços devem ser maiores que 50 mil m². Ao contrário do segmento FM, no Rio de Janeiro, não existe uma imposição geográfica para o local de instalação das torres de Amplitude Modulation. No entanto, por uma questão de facilidade e boas condições, parte das imensas torres está instalada na Ilha de Itaóca, no município de São Gonçalo, na região metropolitana. 

Antes mesmo de solicitar a migração e do processo ser efetivado, as Rádios Globo e CBN encerraram as transmissões no AM carioca e paulista, o que não se sabe se dará direito a solicitação de novos canais no espaço estendido. Já a estadual fluminense Roquette-Pinto, fundada em 1934 em homenagem ao “pai do Rádio” teve seu transmissor roubado e seu Parque Tecnológico invadido e transformado em uma comunidade durante  o final da década de 90.  Após um esforço para o retorno em 2002, foi novamente emudecida pelo desinteresse da gestão estadual da época, mantendo apenas a programação em FM. Nesta caso, abre uma outra dúvida se não caducou a outorga original e se terá direito a pedir um novo canal no espaço estendido.

Efetivação 

No entanto, essa jornada e o esforço migratório podem resultar em nada se o poder público e a sociedade não exercerem pressão na cadeia produtiva. Apesar das leis e decretos que determinam a inclusão do espaço estendido, a maioria dos aparelhos ainda chega às lojas sem essa opção, as montadoras de automóveis tentam substituir os receptores radiofônicos por MP3 e as fabricantes de celulares, há muito tempo, excluíram os rádios de suas funcionalidades básicas.

Sem ter como sintonizar os ouvintes obviamente não terão acesso. Sem eles, não existe audiência e nem investimentos publicitários. Essa dificuldade aumenta ainda mais a desigualdade competitiva entre as migrantes e as velhas ocupantes tradicionais do espaço FM.

FM Rádio Responsabilidade.com

Esteja sempre por dentro!

Assine nossa newsletter e receba as principais informações em seu e-mail.