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CPI das ONGs assusta Câmara, que vê comissão longe de ser instalada

Vereadores ficaram desconfortáveis com a repercussão da proposta e alguns chegaram a retirar as assinaturas; Rubinho Nunes pretende manter pedido de comissão

por

João Vitor Revedilho

4 de janeiro de 2024

IG

Câmara de SP deve discutir abertura de CPI das ONGs em fevereiro, quando retoma os trabalhos no LegislativoReprodução

A repercussão sobre uma possível instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar ONGs que atuem na Cracolândia assustou a Câmara de São Paulo e pode minar a instalação da CPI na Casa. Fontes ouvidas pela coluna apontam desconforto de vereadores com a medida e o enfraquecimento da proposta nos corredores da Casa.

A ideia da CPI partiu do vereador Rubinho Nunes (União Brasil) para investigar organizações que atuem com pessoas em miséria extrema e se elas recebem valores da Prefeitura de São Paulo. Nunes colheu 23 assinaturas de apoio ao texto, quatro a mais que o mínimo necessário para emplacar uma votação no plenário.

“O objetivo é investigar todas as ONGs que atuam no Centro de São Paulo, em especial aquelas que atuam com a massa da miséria, se fazem utilização de dinheiro público ou não, e que podem estar lucrando com financiamento público”, disse Rubinho à coluna.

Nos bastidores, o presidente da Casa, Milton Leite, admitiu que poderia submeter o assunto ao colégio de líderes. A reunião deve ser realizada no dia 1º de fevereiro, quando termina o recesso no Legislativo municipal.

Entretanto, a possibilidade de atacar as ações sociais do padre Júlio Lancellotti e a repercussão negativa do caso nas redes sociais provocou um recuo de parte dos parlamentares. O vereador Thammy Miranda (PL) foi um dos que retirou a assinatura na proposta. Ele foi seguido pelos vereadores Xexéu Tripoli (PSDB), Sandra Tadeu (União Brasil) e Sidney Cruz (Solidariedade). Caso perca mais uma assinatura, o requerimento tende a ser engavetado pela Câmara.

Dois vereadores que mantiveram o apoio ao requerimento também apontaram um desconforto com o projeto. Eles ressaltaram que colocaram o nome no texto por um “acordo da Casa”.

Internamente, os vereadores têm um “acordo de coleguismo” para emplacar projetos. Todos os vereadores assinam as propostas ou requerimentos dos colegas até atingirem o mínimo para conseguirem protocolar os textos na Câmara.

Porém, outra preocupação passou a rondar os vereadores que apoiaram a abertura da CPI: as eleições municipais. Vereadores apontaram que a medida poderia desgastar imagens em pleno ano eleitoral. Um dos parlamentares ressaltou que Lancellotti é uma pessoa ativa socialmente e que “mexer nesse vespeiro pode afetar em outubro”.

Repercussão nas redes sociais

Ao jornal O Globo, Rubinho Nunes acusou Júlio Lancellotti de apoiar ONGs que fornecem alimentos, mas não disponibilizam acolhimento aos dependentes químicos e moradores de rua. Nunes ainda chamou o padre de “cafetão da miséria” e afirmou que as ações dele “retroalimenta a situação das pessoas” de rua.  

A declaração causou repercussão negativa na internet, com suspeitas de possível perseguição sobre o trabalho do religioso. Nas redes sociais, Nunes foi acusado de “ir contra os cristãos” e de tentar minar o trabalho social das ONGs.

Ao iG, o vereador rebateu as acusações e disse que a CPI não tem objetivo de investigar diretamente as ações de Júlio Lancellotti. Entretanto, Nunes não descarta ouvir o religioso na comissão.

Questionado sobre a repercussão nas redes sociais, Rubinho Nunes diz que não afetará o andamento da proposta e reafirmou que pretende manter o requerimento na mesa diretora da Câmara dos Vereadores.

“Não é nada direcionado ao padre Júlio Lancellotti. Infelizmente, ele age como se ele fosse o centro do mundo. A atuação do padre Júlio pode ser investigada, mas ele começou uma campanha de ataques, sendo a comissão nem foi acionada”.

“Não vejo problemas [na pressão popular]. Mesmo com a retirada de assinaturas, isso não mina os trabalhos da CPI. Óbvio que vai haver resistência de alas da oposição, como PT, mas não vejo isso como um impeditivo. Vou seguir adiante com a comissão”.

Já o padre Júlio Lancellotti disse à reportagem que não se sente atingido pelo requerimento e defendeu uma apuração sobre as políticas públicas em apoio aos dependentes químicos e moradores de rua. Ele também negou realizar trabalhos ligados a ONGs.

“As CPIs são instrumentos legítimos do poder Legislativo. A investigação será sobre ONGs, não sobre pessoas. Eu não sou uma ONG, não trabalho em ONGs e não recebo dinheiro público nenhum”, disse o padre.

“Acho importante que haja uma elucidação sobre quais são as políticas públicas para os dependentes químicos em situação de rua. Eu acho que uma das coisas que eles estão procurando dar uma resposta de que se as ações que estão sendo feitas e financiadas pelo poder público são eficazes ou não”, concluiu.   

A Arquidiocese de São Paulo emitiu uma nota em que se diz “perplexa” com as notícias de que o religioso estaria no centro da investigação da CPI. A instituição disse que a possibilidade de abertura de uma comissão “coloca em dúvida” a atuação do padre no serviço pastoral à população em situação de rua.

“Perguntamo-nos por quais motivos se pretende promover uma CPI contra um sacerdote que trabalha com os pobres, justamente no início de um ano eleitoral?”, questionou.

“Padre Júlio não é parlamentar. Ele é o vigário episcopal da Arquidiocese de São Paulo para o ‘Povo da Rua’ e exerce o importante trabalho de coordenação, articulação e animação dos vários serviços pastorais voltados ao atendimento, acolhida e cuidado das pessoas em situação de rua na cidade”, pontuou a Arquidiocese.

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