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A síndrome do anão diplomático

Desafios e oportunidades para o Brasil no cenário internacional

por

Daniel Schnaider

11 de dezembro de 2023

IG

Sede do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) Reprodução/Flipar

No ano de 2014, o porta-voz do ministério de relações exteriores de Israel à época, Yigal Palmor, caracterizou o Brasil como um “gigante cultural e econômico, mas um anão diplomático”. Essa declaração, longe de ser uma mera provocação aos brasileiros, aponta para uma realidade que merece uma reflexão profunda. Ela sugere que, apesar do imenso potencial cultural e econômico do Brasil, há uma discrepância em sua atuação diplomática. Essa observação não é apenas superficial, mas reflete aspectos estruturais e culturais que precisam ser cuidadosamente reconsiderados e transformados para que o Brasil expanda sua influência e eficácia no cenário internacional.

Quando a guerra entre Israel e Hamas irrompeu no dia 7 de outubro, assim como muitas pessoas ao redor do mundo, senti um forte impulso de contribuir de alguma forma. Diante da pergunta “O que posso fazer?”, iniciei um meticuloso mapeamento de Organizações Não Governamentais (ONGs) no Brasil, Estados Unidos e Israel, com o objetivo de identificar aquelas que mais se alinham aos meus valores e princípios. Isso possibilitaria uma colaboração efetiva e significativa por meio do voluntariado. Esse processo não se tratava apenas sobre oferecer ajuda, mas também sobre encontrar uma organização com a qual eu compartilhasse uma missão comum e pudesse verdadeiramente fazer a diferença.

Realizei um extenso mapeamento de diversas organizações, abrangendo uma ampla gama de temas críticos como relações internacionais, paz e estabilidade, gerenciamento de conflitos e guerras, estratégias globais, inovação, luta contra a corrupção, transparência, pesquisa avançada e sustentabilidade. Estas ONGs, com missões de escopo global, têm origens variadas, representando diversas nacionalidades, porém, curiosamente, nenhuma delas é brasileira.

Mesmo as instituições brasileiras mais renomadas tendem a concentrar-se exclusivamente na realidade nacional. Isso é refletido não apenas em seus sites e materiais, que frequentemente estão disponíveis apenas em português, mas também na composição de seus membros, onde raramente se observa uma diversidade de nacionalidades. Essa tendência resulta na formação de um círculo fechado, ou o que popularmente se denomina como “panelinha”, limitando assim a sua abrangência e capacidade de engajamento em um contexto global.

O presidente Lula dedicou uma grande parte do seu tempo a assuntos externos. Até agora, desde sua posse em janeiro de 2023, realizou 15 viagens internacionais, visitando um total de 21 países, com direito a manifestações sobre guerras, sustentabilidade, parcerias comerciais e muito mais. No entanto, fica claro que há limitações em sua estratégia ao abraçar países considerados fracassados como Irã, Cuba e Venezuela, enquanto que em casa, não há instituições muito relevantes nos temas prioritários a nível e alcance global.

Onde estão os intelectuais e diplomatas brasileiros mundialmente reconhecidos por seus pensamentos vanguardistas? Quais são as think-tanks brasileiras que realizam pesquisas citadas nos meios de comunicação internacionais? Ou, ainda, em quantas operações para ajudar civis em conflitos participou o exército brasileiro? Quantos refugiados recebemos, quem são os nossos, ao menos candidatos, ao Nobel da Paz e quais são os pilares morais nos quais nos sustentamos e o que estamos dispostos a fazer para defendê-los?

Para elevar o status do Brasil no cenário internacional, é essencial que a nação transcenda sua imagem atual, limitada à exportação de commodities, ao turismo atrativo e à cordialidade do seu povo. Para alcançar uma relevância global significativa, o Brasil precisa, antes de tudo, transformar sua mentalidade local. É importante questionar, por que o país exporta seus jogadores, mas não teve capacidade de criar sua UEFA (União das Federações Europeias de Futebol), ou o porque importamos energia ao invés de sermos autossuficientes. Como, apesar da proximidade da costa leste americana, não conseguimos capitalizar em cima disto?

A síndrome do anão diplomático se dá ao Brasil não apenas pela sua ausência no debate global, mas pela sua falta de capacidade de execução doméstica. Cerca de 50% da população ainda não tem saneamento básico. De acordo com o relatório Doing Business 2023, elaborado pelo Banco Mundial, o Brasil ocupa a 124ª posição entre 190 países. E segundo análise do Índice de Competitividade Global 2023, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupa a 71ª posição entre 141 países. Já de acordo com o Índice de Percepções da Corrupção (IPC) da Transparência Internacional, estamos na 94ª posição entre 180 países. 

A imagem do presidente e do Brasil no cenário internacional vai além de formalidades e cerimônias de recepção com tapetes vermelhos. Para construir uma reputação e credibilidade duradouras, é essencial que a nação demonstre liderança e inovação a partir de suas próprias ações internas. Ao se tornar um exemplo de progresso e desenvolvimento, o Brasil pode atrair a atenção e o respeito internacionais. Com isso, outros países buscarão aprender com a nossa experiência, e a voz do Brasil será cada vez mais valorizada em discussões globais. Essa mudança será um marco significativo na superação da “Síndrome do Anão Diplomático”.

Brasil colunista Daniel Schnaider Diplomacia

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