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Minimalista praticante

Mãos talentosas: a técnica refinada de Luís Carvalho na odontologia

por

Ivan Ribeiro

17 de dezembro de 2023

IG

Mãos talentosas: a técnica refinada de Luís Carvalho na odontologiaFreePik

Ele trabalha só com o essencial e apenas o necessário. Sempre sozinho, pois o que faz aprendeu assim. Por fora, não parece ser diferente de outros tantos de sua geração, que é a minha (60 e poucos). Talvez um pouco cabeludo e despenteado. E porque não usa roupa branca, símbolo da limpeza? Por que usaria? A limpeza do seu local de trabalho se dá enfrentando aquilo que não se vê. Seu inimigo são seres microscópicos, e não dragões, aliens ou predadores.

Essa postura é bem diferente das gerações mais novas, que atendem de jaleco, camisa social e cabelo penteado e recoberto de gel fixador. Esse profissional nos restringe a um ambiente supostamente esterilizado, iluminado por leds esverdeados ou azulados, lembrando um filme de Sci-FI.

Nós, os pacientes, usamos touca, protetores de pés (não seriam protetores de sapatos?) e, às vezes, um jaleco de “papel não tecido” (valha-me Oxalá). Esse é o padrão de assepsia NASA. Em seguida, somos apresentados a vários personagens do moderno consultório: o operador de suga baba, o auxiliar do líder, que limpa, separa os tubos de diferentes cores para que o líder os misture e limpa a bagunça ao final. E, fora da área esterilizada, a “financeira” encarregada de apresentar a conta. Após ter colocado todos os aparatos dignos de um astronauta (ou cosmonauta, a sua preferência), o paciente fica na cadeira onde lhe é coberta a boca com plástico e recebe óculos digitais onde assistirá nos próximos 30 minutos ao show em 3D, 5k e Dolby Atmos THX, de Esaú e Jacó, dupla caipira evangélica, que vem fazendo sucesso em Goiás com o novo clássico “Deus trabalhas só para mim”. Assepsia ambiental padrão NASA.

Nosso herói não faz nada disso. Luís Carvalho é um minimalista praticante, alguém que se recusa a utilizar mais recursos que o necessário para atingir determinado fim. No caso, a manutenção dos seus dentes. Enquanto o mercado diz: consuma, consuma, consuma, ele se recusa a ouvir.

Luís é cirurgião dentista formado há 40 anos. Seu ofício parece igual ao dos recém-formados, mas não é. Enquanto a garotada usa impressoras 3D, canetas com câmeras ultra-super-plus e brocas de titânio (não tenho certeza, mas fica bem no texto), nosso minimalista usa uma haste metálica com ponta dos dois lados, para a maioria dos trabalhos que faz.

Campo cirúrgico? Sugador de saliva? Vestimentas exóticas e outros adereços que tornam uma simples obturação de um dente algo parecido com uma cirurgia cardíaca de peito aberto? Ele tem todo o arsenal do dentista moderno (ou pelo menos a maior parte), mas prefere não usar, pois, como diz, “não existem provas científicas que esse aparato todo se justifique frente aos resultados. Mas aumentam o custo”. Infeções? Com o tanto de antibióticos que são colocados no cimento cirúrgico, não há risco”. Além disso, entre um paciente e o próximo, seu consultório é submetido a limpeza, que ele mesmo faz. Ele arremata com uma frase lapidar “ciência é baseada nas evidências, o resto é crendice, base da enganação”.

O que faz sua ação ser diferente é a experiência, somada a técnica refinada. Ele me diz o que conta muito é a manipulação, quanto menos, melhor. Seus movimentos são rigidamente planejados, com base num estudo radiológico ou mesmo uma tomografia, que lhe permitirá compreender o emaranhado de conexões ósseo-musculo-neurais existentes e como abordá-las. Cada gesto deve ter a maior eficiência. Ele não aceita menos que a perfeição no seu trabalho.

Não há computadores visíveis. O seu consultório não parece antigo, mas é desinformatizado.

Luís já teve uma clínica dentaria, durante dois anos. Foi dessa experiência que se emergiu o minimalista praticante. Como nunca havia lidado com convênios dentários, contratou uma empresa de consultoria. E aprendeu que no custo de venda não cabia um tratamento completo padrão NASA, e que o jeito era descumprir as regras pactuadas. Pulou fora há 30 anos. Inspirou-se e se inspira na figura do seu pai, que durante toda a vida (até se aposentar) tocou a Padaria Torino, ali no Barranco da Cardoso de Almeida. Eleita várias vezes um dos dez melhores pães da cidade, e olhe que falamos de São Paulo! Ela existe até hoje no mesmo ponto, com sua frente de seis metros de largura, bem diferente das mega padarias paulistas, com dezenas de metros de fachada de vidro e aço.

Hoje, ele planeja o seu futuro. Daqui a dois anos vai dar uma boa reduzida no ritmo. Com quatro anos de artes plásticas, pretende avançar na marcenaria, nas artes manuais e nos estudos da medicina ortomolecular. E continuará cofiando nas suas mãos.

colunista Ivan Ribeiro trabalho manual

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